Xico Graziano | Catastrofismo de Marina Silva sustenta discurso da “herança maldita”

Governo passa a considerar metodologia diferente para medir a fome na tentativa de vender ilusões, escreve Xico Graziano

Salvadores do mundo tendem a ser catastrofistas, carregam a tragédia para vender suas ilusões. Quanto pior, melhor.

Assim se compreende a fala equivocada da Marina Silva em Davos, na 3ª feira (17.jan.2023). Uma nação com 120 milhões de famintos, por certo, causa misericórdia em qualquer mortal. O exagero serve para reforçar a narrativa lulista dos salvadores da pátria.

Entretanto, qual o real problema da fome no Brasil?

Os estudiosos da questão alimentar tomam como referência mundial as publicações da FAO/ONU. No relatório (íntegra – 5MB) de 2021, intitulado “Panorama Regional de Seguridad Alimentaria y Nutrición: Estadísticas y Tendencias”, a FAO informava que padeciam de fome na América Latina e Caribe um total de 59,7 milhões de pessoas.

Analisando mais detalhadamente tais dados, país a país, percebe-se, nas últimas 2 décadas, uma evolução bastante favorável ao Brasil no enfrentamento desse triste mapa da fome.

Em termos percentuais, a “subalimentação”, que na metodologia da FAO caracteriza a situação de fome, afetava 10,7% da população brasileira no início do século 21. Vinte anos depois, havia caído para abaixo de 2,5%. A redução é espetacular.

Curiosamente, essas mesmas informações, detalhadas em cada país, não estão fornecidas no mais recente relatório da FAO (íntegra – 16MB), divulgado na 5ª feira (19.jan.2023), que aponta um incremento da fome de 28%, de 2019 a 2021, na América Latina e Caribe, um pouco acima do aumento mundial de 23%.

A FAO mostrava, ainda, que a “insegurança alimentar grave ou moderada”, afetavam 49,6 milhões de pessoas no Brasil. Dessas, 7,5 milhões de pessoas enfrentavam grave insegurança alimentar.


Esses são os números oficiais. Quando, em 2014, a FAO divulgou uma grande redução nos índices nacionais, o PT cantarolou que havia acabado com a fome no Brasil. Conforme já escrevi, ajudou nessa queda uma mudança metodológica, tendo a FAO passado a considerar na pesquisa a alimentação fora do domicílio.

Olhando historicamente, várias razões levaram à melhoria alimentar no Brasil, destacando-se 5 fatores:

  • Estabilização da economia, com o fim da inflação que corroía o poder de compra dos salários;
  • Aumento na oferta de alimentos, advinda do ganho de produtividade da agropecuária nacional;
  • Novos produtos à disposição dos consumidores, devido aos avanços no processamento industrial de alimentos;
  • Programas públicos de combate à pobreza, incluindo a merenda escolar;
  • Preço acessível do alimento à população, incluindo as refeições baratas obtidas fora da residência.

Nesse último item, a FAO comprova que o Brasil tem um dos mais baixos custos da alimentação popular entre os países da América Latina e Caribe. A “dieta saudável” tinha o valor de US$ 3,08 dólares/pessoa/dia (2020), abaixo inclusive da média mundial, de US$ 3,54 dólares/pessoa/dia.

Curiosamente, Marina Silva se esqueceu das estatísticas da FAO, trocando-as pelas da “Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar” (Rede Penssan). Saiu daqui, de uma entidade pouco conhecida, o inesperado número de 120 milhões de famintos no Brasil.

(Na verdade, logo depois a ministra se corrigiu, falando em 33 milhões de pessoas com fome)

A Rede Penssan utiliza uma forma de pesquisa totalmente distinta da FAO, e altamente questionável, baseada na percepção de uma amostra de famílias sobre seu consumo alimentar. Não é quantitativa.

Método científico é discussão para acadêmicos. Aqui interessa a pergunta: por que, antes, a FAO era a grande referência, e agora foi abandonada?

A resposta tem natureza política: para descer a lenha em Jair Bolsonaro (PL). Recém-eleito, o governo carrega as tintas contra a “herança maldita” do governo anterior. Lula (PT) fez isso com Fernando Henrique em 2003, e repete a dose agora.

É óbvio que, em termos éticos, jamais se pode aceitar que qualquer pessoa passe fome. Mas, objetivamente falando, houve uma grande melhora na situação do abastecimento alimentar do Brasil. É motivo para orgulhar a nação, e não ir lá fora atirar pedra na vidraça.

Esse fato não isenta o governo anterior das barbaridades anticientíficas que promoveu durante a pandemia. Por outro lado, sabidamente, em todo o mundo, todos os indicadores de segurança alimentar no mundo pioraram em 2021 e 2022.

Agora, com a retomada de certa normalidade, os prejuízos verificados na qualidade de vida estão se arrefecendo. Será um prato cheio para os salvadores da pátria de plantão.